terça-feira, 17 de julho de 2007

Praia


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- Eu não fumo - disse pausadamente enquanto acendia um cigarro.
Não fumava desde o dia anterior. Desde a noite anterior em que se tinha deitado no chão da sala e recordado as revistas nos pés a imitar patins.
- Não fumo. Não quero fumar.
Séria. De olhos cerrados e lábios tingidos de nada. Na mão pousada a liberdade que falta à mão que segura o cigarro.
- Onde foram os miúdos?
- Que miúdos?
- Os filhos... os nossos filhos.
- Diz?
Os miúdos. Os miúdos que nunca chegaram a existir porque eles... eles nem tinham pensado nisso. Os filhos dos outros. Os sobrinhos. As sobrinhas. Os primos.
- De quem? Quem?
- Não sei. Eram nossos ou... não? Eram teus talvez. Meus não. Ou... talvez fossem meus também.
- Fumas cigarros?
No ar e em eco permaneceu a gargalhada. A que ele amava. Oh... amor, como amava horrivelmente aquela gargalhada húmida num sorriso seco.
- É o sol. Este sol queima a pele, estica-a, consome-a e mata-me. Odeio a praia.
- Tu quiseste vir.
- Sim. Mas quando o disse mentia-me amando.
- Tonta.
Sorriem.
- Somos ricos.
- Sim.
- Muito ricos.
- Sim.
- Obrigado.