Duas amigas - chevry
Mais duas caixas. Uma em papel artesanal azul com uma fita larga de flores recortadas em preto. A outra em papel de parede azul com riscas castanhas. O armário agora está azul, laranja pálido e laranja forte. Um azul demasiado infantil para um armário que se pretende no quarto de uma mulher de 34 anos. O tempo sobra-lhe e falta-lhe. Na impossibilidade de escrever ocupam-se as mãos e a mente com as tesouras, o papel, a cola, as tintas, as madeiras, o verniz, a lixa...
"Ocupa as tuas mãos minha filha..."
Mãe...
Deus e o Diabo.
O Deus que castiga. O Diabo que tenta. A felicidade e o dever. Cumprir... cumprir.
Dá-me asas. Dá-me. Quem dá? Quem dá mais? Por dez pares de peugas em algodão branco com raquetes vermelhas e azuis bordadas em cruz como se de armas se tratassem. No Jardim sentávamo-nos nos bancos de pedra e aguardávamos que alguém aparecesse. Sem objectivo. Sem destino. O sono vegetal da heroína. Ao longe tinha cantado...
...Alfama de cacos pintados
De tintas e trocas
E ventos no rio...
Parecia tão longe. Agora a Feira já não é das ladras nem dos ladrões. O berbequim do pai do Paulo vendido por cinco contos. As escovas e pentes do cabeleireiro da Alameda vendidos ao desbarato. Rápido. Rápido. Tinha de ser rápido. O autocarro partia. O táxi não esperava.
Ganha-se barriga e peso.
Vamos a Hamburgo amor. Vamos a Hannover. Vamos às cidades do latex. Vamos e lá saímos contigo vestida de mulher e comigo de latex. Serás a minha esposa e puta. Se ainda quiseres...
As gavetas estão por forrar.

