domingo, 9 de setembro de 2007

Retalhos da vida de alguém


Duas amigas - chevry

Mais duas caixas. Uma em papel artesanal azul com uma fita larga de flores recortadas em preto. A outra em papel de parede azul com riscas castanhas. O armário agora está azul, laranja pálido e laranja forte. Um azul demasiado infantil para um armário que se pretende no quarto de uma mulher de 34 anos. O tempo sobra-lhe e falta-lhe. Na impossibilidade de escrever ocupam-se as mãos e a mente com as tesouras, o papel, a cola, as tintas, as madeiras, o verniz, a lixa...

"Ocupa as tuas mãos minha filha..."

Mãe...

Deus e o Diabo.

O Deus que castiga. O Diabo que tenta. A felicidade e o dever. Cumprir... cumprir.


Dá-me asas. Dá-me. Quem dá? Quem dá mais? Por dez pares de peugas em algodão branco com raquetes vermelhas e azuis bordadas em cruz como se de armas se tratassem. No Jardim sentávamo-nos nos bancos de pedra e aguardávamos que alguém aparecesse. Sem objectivo. Sem destino. O sono vegetal da heroína. Ao longe tinha cantado...

...Alfama de cacos pintados
De tintas e trocas
E ventos no rio...

Parecia tão longe. Agora a Feira já não é das ladras nem dos ladrões. O berbequim do pai do Paulo vendido por cinco contos. As escovas e pentes do cabeleireiro da Alameda vendidos ao desbarato. Rápido. Rápido. Tinha de ser rápido. O autocarro partia. O táxi não esperava.

Ganha-se barriga e peso.

Vamos a Hamburgo amor. Vamos a Hannover. Vamos às cidades do latex. Vamos e lá saímos contigo vestida de mulher e comigo de latex. Serás a minha esposa e puta. Se ainda quiseres...

As gavetas estão por forrar.

3 comentários:

Anónimo disse...

Escreves bem, mas prefiro-te no 100Vergonhas. Estás convidade a visitar o Bojardona.

flôr de sal disse...

a tua escrita está cada vez mais despojada, mais minimal, ao mesmo tempo que assume contornos cada vez mais surrealistas... é como se se estivesse a cristalizar...
Tinha saudades de ti
um beijinho

Ricardo Pereira disse...

Gostei da tua escrita, acho que escreves muito bem! Continua.