
Paula Rego - Young Predators 1988
Não dormira. Nem ela nem a irmã sentada na cama arrumando a gaveta da roupa interior. A mãe ainda não chamara. Ainda não pairava no ar o cheiro ao leite. Lá fora nas escadas estava ainda atado à pega da porta o saco com o pão da manhã.
- Falta muito Carla?
- Não sei... a mãe ainda não chamou...
- Vou levar o livro novo. E tu, levas o teu?
- Já está na mala verde.
A verde, a vermelha, a preta, o saco azul, o saco grande das flores laranjas, o robe, as bóias cheias para que não perdessem tempo soprando quando chegassem à praia.
- Vais comigo à água?
- Sei lá.
- Porquê?
- Não sei. Mas a mãe vai. Vai contigo.
- E tu? Não vens?
- Não sei.
Sempre assim, meio teimosa, meio afastada, meio independente de todas nós. Mas sempre distraída e incoerentemente dependente. As vezes que sentadas lado a lado nas toalhas a víamos sair da água e olhar no areal perdida, sem saber onde deixara a toalha, sem avistar a família. Procurando o arco-íris do saco e das bóias, dos biquinis e dos brinquedos, dos baldes e das pás. E nós gritando por ela, chamando-a e rindo. Vendo-a afastar-se, semi-circular hesitando nos passos. A minha mãe levantando-se para se tornar mais vísivel sem no entanto caminhar em seu auxílio. Professora, crente no ensino pelos erros, no respeito pela essência de cada um. E era com um olhar fingido que vinha até nós e pegando na toalha se enxugava. Depois com o cuidado de uma mulher que já aprendeu ter algo a esconder, despia-se sob a toalha e vestia um outro biquini seco. Um mais entre a dúzia que trazia. Colocava a touca de praia na cabeça e afastava-se para ir estender a toalha um pouco mais longe. Onde talvez pudesse sonhar já ser uma senhora que vai à praia sozinha, onde pudesse sonhar que no mundo não existiam pés que atiravam areia ao caminhar, mãos sujas de sandes que a agarravam para ir brincar, seios despidos de irmãs mais velhas e inconvenientes e mães permissivas que ofereciam pasteis de salsicha e folhados de frango.
- A Maria ainda dorme?
- Não sei. Vai ver.
- Maria?! Maria? Maria?
- Hã?
- Estás a dormir?
- Sim!
- Está bem. Não acordas?
- Não. Deixa-me.
- Não vens para a praia?
- Vou. Deixa-me. A mãe...
- Então anda. Acorda. Já é de dia...mana...
A mana que dormia sem a ansiedade do primeiro dia de praia. A mana que já tinha outros entusiasmos maiores. Os rapazes, as amigas. Amigas diferentes da Nica e da Bé, da Marta e da Tina. Amigas já crescidas com curvas e altos no peito. Que usavam a parte de cima do biquini. Ainda que a Carla também usasse e só tivesse duas ervilhinhas. Eram amigas mais compostas, com cuidados com o cabelo na praia. Que olhavam nos rapazes e davam risinhos e já não levavam baldes nem pás. A Maria que a ajudava a pegar no saco grande e que sorria à mãe quando esta ralhava com a Carla.
- Vou levar o balde verde. E tu Carla?
E na ansiedade da resposta, e daquele dia de praia o balde verde ficou esquecido ao lado da cama quando se ouviu uma voz que gritou:
- Meninas?! Meninas… acordem.
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