sábado, 5 de julho de 2008

Sopas


Del Lagrace Volcano


- É no outlook.
- Onde?
- No outlook express.
- Porquê?
- Não sei... ou sei. Já pensei que fosse pela possibilidade de em seguida enviar a alguém. Colocar um endereço e carregar no Send. E seguia. Não ficava somente ali no meu PC.
- E sempre escreveste ai?
- Não. Já tive caderninhos.
- Moleskines?
Sorri. Cadernos. Qualquer um. Sem linhas de preferência, pois estas prendem e amarram. Cadernos. Sem a importância da cor ou do acabamento. Agendas. Livros, poderia escrever em livros. Sobre as letras as minhas letras.

Obrigado mãe.
Sempre que penso em ti choro de tanto amor. Pergunto-me se é culpa. É a angústia do que foram e são os nossas vidas.

Está silêncio fora e dentro de mim.

Café.

Um dia puseram-na num barco e atravessou o rio. Era de noite e estava frio. Parece que não sabia onde ir. Nunca. Não somente naquela noite. Tinha entrado num carro de estranhos. Em fúria, rindo. Estava louca. Tinha abandonado a manhosa de uma discoteca com música brasileira onde loiras e morenas abanavam as ancas. Não era normal. Nunca fora. Não sabia o que eram sonhos de casar ter filhos. Para morrer escolheria ela a forma.

Batem leve levemente.

- Despe-me.
Liberdade.

Trago-te na cabeça na impossibilidade de te trazer colado ao corpo. Miséria da puta e da mulher séria.

- Vamos conta.
- Sim.

O avô era um homem de aparência séria e cerrada capaz de corar de desejo. No dia em que nos conhecemos esfreguei-lhe os pés na cara. Nunca o senti tão perto. O desejo consumia-nos. Ele gostava de se vestir de mulher. Eu... eu gostava de sentir. Mandei-o embora mas ele voltou. Quantas as vezes que quisemos. Foi assim.

- Ohhh. Conte mais.
- Talvez um dia. Agora a avó vai fazer sopa.
- Bateu-lhe?
- Sim. Bati-lhe.
- Porquê?
- Porque... porque provocava-lhe sensações que me excitavam. Porque gostava de o ver triste humilhado. Porque tratar de um ferido sabe melhor que tratar de um saudável.
- A sopa é de quê?
- De cenoura e alho francês.
- Ponha também arroz, .

1 comentário:

brokenbird disse...

O melhor de certos textos, insiste muitas vezes em esconder-se na poeira das recordações banais :). Cada leitor é também um arqueólogo